É preciso coragem para ficar
Fico.
Construo, porque acredito que alguns encontros oferecem aquilo de que mais precisamos para continuar vivendo: segurança para crescer.
Nunca cresci de outra forma que não fosse pela dor. Ainda assim, ela nunca me impediu de enxergar beleza. A dor não me cegou; sustentou meus passos nas relações.
Porque crescer é perder.
Perde-se a fantasia de ser o bebê mais lindo do mundo.
Perde-se a fantasia narcísica de que o mundo gira ao nosso redor.
Perde-se a ideia de que nossos pais são heróis.
Perde-se, pouco a pouco, aquilo que um dia tornou a vida suportável.
Toda transformação exige um luto.
Por essas mortes eu já passei.
E continuo passando.
Hoje sei que o mundo não gira ao meu redor. E que bom.
O mundo é vasto, e eu sou apenas uma entre tantos seres que insistem em viver.
Diante do mar, das florestas, dos animais e do tempo, reconheço minha pequena dimensão.
Paradoxalmente, é essa insignificância que me devolve à minha humanidade.
Ninguém vive sozinho.
Somos feitos de encontros.
É somente nesse cenário que posso resistir à vida.
É somente nele que posso me transformar.
Mas como permanecer quando a dor rasga o peito?
Talvez seja justamente aí que nos apeguemos aos objetos, às pessoas, ao trabalho, às telas e às distrações.
Tentamos preencher o vazio.
Anestesiar a solidão.
Silenciar a angústia.
Mas é preciso cuidado.
Talvez nunca seja suficiente.
Porque o vazio permanece.
Não como um defeito a ser corrigido, mas como parte da própria condição humana.
Criança, existe uma verdade difícil de aceitar:
o sofrimento não desaparece.
O que muda é a forma como aprendemos a caminhar com ele.
Vivemos em muitos mundos.
Existe o mundo concreto, hoje atravessado pela camada virtual.
Existe o mundo interno, habitado por lembranças, fantasias, medos e futuros imaginados.
Passamos boa parte da vida perguntando:
Como teria sido?
Como seria?
Como poderia ser?
A imaginação nos permite visitar infinitas possibilidades de existência.
Tudo permanece em potência.
E justamente porque tudo parece possível, às vezes deixamos de reconhecer aquilo que realmente está diante de nós.
Sartre escreveu que toda escolha implica uma renúncia.
Também escreveu que somos, sendo.
Eu leio isso e penso:
isso cansa pra caralho.
Porque existir exige escolher continuamente.
Ainda assim, escolho.
Não porque tenha certezas.
Mas porque assumir a autoria da própria vida talvez seja a única liberdade que realmente possuímos.
Enquanto isso, a internet nos apresenta vidas extraordinárias.
Ou, pelo menos, fragmentos cuidadosamente escolhidos para parecerem extraordinários.
O “feliz no simples” virou meme.
Talvez porque já não saibamos desejar o simples.
Fomos ensinados a perseguir experiências grandiosas, pessoas inesquecíveis, sucessos extraordinários.
Mas talvez o extraordinário seja outra coisa.
Talvez ele aconteça quando alguém suporta permanecer.
Quando um vínculo atravessa as fantasias sem desaparecer.
Quando o encontro resiste à dor.
É esse extraordinário que procuro.
O mergulho profundo na alma dos meus.
A conexão humana que nenhuma tecnologia substitui.
Um recipiente capaz de acolher aquilo que sou, sem exigir que eu deixe de existir.
Por isso planto sementes onde acredito haver terra fértil.
Espero.
Cuido.
Permaneço.
Porque ficar também exige coragem.
Espero que ficar seja seguro para minha transformação.
Que ficar não me mate.
Que o encontro seja maior do que a dor.
Que o cuidado exista.
Que exista alguma segurança em existir junto de alguém.
A fantasia precisa morrer.
Mas isso não significa que eu queira morrer com ela.
Talvez apenas um pouco.
Morrer no hoje para nascer amanhã.
Habitar outro tempo.
Outro modo de existir.
Acolher o vazio sem precisar preenchê-lo imediatamente.
E, quem sabe, reencontrar o sentido que parecia perdido.
Ainda acredito que o amanhã possa ser maior do que o ontem.
E talvez crescer seja exatamente isso:
continuar escolhendo ficar, mesmo depois que a fantasia acaba.
