O cansaço de existir

Eu sou passado, presente e futuro.
Mas, a cada dia, sou alguém novo.
É cansativo.
Sinto que não consigo me acompanhar.

Me conheço um pouco mais todos os dias:
mais dores,
mais faltas,
mais vazios dentro de mim.

O que fizeram comigo?
Como posso não me sentir segura em lugar nenhum?
Talvez eu não esteja em mim,
porque o meu mundo interno, às vezes, é complicado de habitar.

Nele, as coisas vibram demais.
E a dor é lacerante,
paralisadora.

No presente, busco dia após dia observar o que me mata
e o que me deixa mais forte.
Será que, na verdade, fico forte ao morrer um pouco todos os dias?

Espero que sim.
Porque esses lutos precisam me servir de algo,
de uma força motora.
Não seria justo sentir tanto
e não conseguir transformar isso nem em um texto sequer.

Eu, que tenho medo de mudanças,
tenho percebido cada vez mais que todos se movimentam o tempo inteiro.
Vejo os outros indo,
mudando,
continuando.

E eu me percebo querendo parar.
Não querendo existir.
Não quero me mexer
e não quero que ninguém se mexa.

Surfar é cansativo.
As ondas são as minhas emoções.
E, se eu cair da crista da onda,
posso me afogar.

Me sinto perdida,
sem rota.

Não há possibilidade de mapa
no habitar de um mar violento.