Em nível emocional, como era a sua casa?
Talvez de alvenaria bruta, tijolo e cimento expostos.
As paredes que separavam você do mundo machucavam ao esbarrar.
Eram grosseiras, arranhavam mais que espinhos. Protegiam — mas a um custo.
Não havia recurso para acabamento.
Não havia recurso emocional para proteger sem brutalidade.
O amor bruto é confuso.
Quando naturalizado, faz a gente acreditar que não pode ser diferente.
Que é tudo o que merecemos.
Qual era o cheiro dessa casa?
Que base emocional você teve?
Como era o cuidado com o ambiente?
Os passos de quem morava ali te assustavam?
A vida passa, os anos acontecem, a criança cresce…
E essa casa?
Ela ainda está de pé?
Ou, durante uma tempestade qualquer, você descobriu que morava sobre areia — e o que restou foi abandono?
É possível que quem está do lado de fora nunca imagine a falta de aconchego ali dentro. A frieza.
Isso não se resolve com cafés da manhã fartos, babás, estrutura impecável, pé-direito duplo e paredes com acabamento perfeito.
Mesmo nesses cômodos, ainda pode faltar calor. Presença. Pertencimento.
A falta guia as escolhas do adulto.
Ela conduz à repetição — ou à busca.
Busca por segurança.
Por calor.
Por pertencimento.
Busca pelo que não se teve.
Tomar consciência disso é conquistar autonomia para acolher a criança interior que agora pede, com mais vocabulário e mais consciência, escolhas que a contemplem.
Quem fizer sentido vai ficar.
Vai morar com ela.
Vai ajudar a construir estruturas lindas, quadros nas paredes, incensos e velas aromáticas.
Vai ter cheiro de alho e cebola refogando.
Ali haverá um lar que protege e nutre.
É mentira que só sabemos dar aquilo que recebemos.
A falta que atravessa a criança e ecoa no adulto não cicatriza sozinha — ela pulsa, inflama, pede ação.
Seja o adulto que te salva.
Coloque essa criança em uma casa com acolhimento, calor, conforto e segurança.
Construa com as próprias mãos um lar de paredes firmes.
Cuide dele. Faça reparos. O tempo sempre deixa marcas.
Seja seletiva com quem entra pela porta.
Aproprie-se do seu lar.
E, se houver invasores, grite. Afaste. Defenda.
Use a força que sua criança não tinha.
A história não precisa se repetir.
Não falhe consigo mesma.
