Fui lançada neste mundo sem paraquedas.
O mundo se apresentou ao meu corpo antes de qualquer explicação:
como dor na primeira respiração,
como tensão na fome,
como falta sentida antes mesmo de ser nomeada.
Existir, desde o início, foi um acontecimento que me atravessou.
Não escolhi nascer — mas escolho, todos os dias, como habitar aquilo que me foi dado.
Sigo adulta com dores e angústias.
Não como falhas a serem eliminadas,
mas como modos pelos quais a vida se manifesta em mim.
Aprendi a lidar — e sigo aprendendo —
porque a existência não se resolve: ela se vive.
A vida é imprevisível.
E é justamente nessa imprevisibilidade que ela se abre como possibilidade.
Diante do vazio e do nada, o que sinto
não é apenas ausência,
mas um campo silencioso de potência.
O vazio não é só falta —
é espaço de emergência do sentido.
Eu me sinto inteira como sou,
não porque esteja completa,
mas porque me reconheço em processo.
Eu me gosto, me cuido, me mimo —
como gestos de presença no próprio existir.
Quando pinto o cabelo de madrugada,
quando corto uma franja,
quando maratono uma série,
não fujo da vida —
eu a afirmo em pequenos atos de liberdade encarnada.
E se me perguntarem “por que você fez isso?”,
eu respondo: porque eu quis.
Porque o meu querer é um modo de me posicionar no mundo.
Porque desejar é uma forma de existir com autoria.
Diante do vazio, sinto-me lançada outra vez à existência —
não como quem busca certezas,
mas como exploradora da própria experiência de estar viva.
Se eu amo estar viva, por que sinto medo?
Porque a vida não é neutra.
Ela toca, fere, atravessa.
O medo não é negação do amor pela vida —
é o traço sensível de quem reconhece
que viver implica exposição, risco, perda e transformação.
Amar a vida é aceitar que ela pode doer.
E ainda assim permanecer aberta.
O vazio não dura,
porque a consciência se move,
o corpo sente,
o tempo passa,
e a vida insiste em acontecer.
A vida é movimento.
E eu sou o movimento vivendo em mim.
